CCMQ

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domingo, 4 de novembro de 2012

TEXTO DOS ALUNOS - Bárbara Sanco


E se as sombrinhas se revoltarem?

Pensando sobre para onde vão os objetos perdidos lembrei que quando criança detestava minhas sombrinhas e tentava perde-las, muitas vezes sem sucesso.

Na escola, a servente que limpava minha sala corria chamando meu nome e empunhando aquele estampadinho floral com cabinho metálico escolhido pela minha mãe e lá se ia minha tentativa de desfazer-me dela.
No ônibus era mais fácil eu escondia embaixo do banco e poucas vezes alguém via a tempo de me devolver.

Foram tantas armações, feitas para me proteger da chuva, que escondi para tentar perder que me deu agora uma espécie de medo.
E se elas estiverem todas em algum lugar ressentidas pelo meu desprezo?
Será que com a chegada do verão planejam esconder de mim o Sol como vingança? Espero que não.

Em algum buraco de Alice, devem estar fazendo companhias, para minhas sombrinhas perdidas, as fotos que guardei e nunca mais achei e com certeza muitas tarrachinhas de brinco que criam pernas e se aposentam ou são levadas por duendes. Sei lá!

Pergunto-me não só para onde vão os objetos perdidos, mas também se eles se sentem abandonados e vou me enchendo de arrependimentos.
Prometo nunca mais abandonar minhas sombrinhas.

TEXTO DOS ALUNOS - Bárbara Sanco


Game over

Começa o jogo.
Ai, meu pé esquerdo está doendo mais que o direito. Acho que estão reclamando a saudade de 20 anos de salto alto, já que hoje calcei um tênis chatinho. É deve ser isso mesmo, o incômodo me faz entender com significação mais concreta o adjetivo. Mas que fazer, preciso caminhar até o ônibus.

Saio do prédio e alcanço a rua e nela as luminárias do passado são árvores de fogo branco, entre mesas de plástico apinhadas de gente, num happy hour esticado. Deixo minha colega num táxi e sigo pelo calçamento de pedras. Os bares ficaram para trás. O burburinho vai virando sussurro. Abro um meio sorriso ao lembrar aquela barba grisalha e cônica vestida de paletó e gravata cinza que visitou a sala de aula hoje. Que figura!

Dou-me conta que as pessoas rareiam e que virei recheio entre o comércio de portas fechadas. Dá um friozinho na barriga, receio de ser assaltada, então apresso meu manquitolar. Transmuto o medo em coragem ao encarar a tarefa como aventura. Há quem pague para sentir medo na montanha russa, pelo menos medo de assalto é de graça. Já perto da parada escuto a música ao vivo que vem do Chalé e que dá trilha sonora para minha façanha. Que sorte, o Carlos Gomes na parada espera eu embarcar. Pago a passagem e desligo o alerta máximo, fim da primeira fase.

As próximas, desembarcar e caminhar uma quadra até em casa são de baixo grau de dificuldade e venço sem esforço.
Chave na porta, game over, em casa ilesa guardo os bônus de vida para o jogo de amanhã.

TEXTO DOS ALUNOS - Fátima Parodia


Um Deus pra libertar minha avó

Quando se tem dez anos, a vida é tão somente um clarão de sol, a morte é sombra que não se vê. Intuitivamente, eu sabia - era a reta final pra minha avó. Então, me intitulei enfermeira-chefe, acreditava piamente que somente eu, saberia tomar conta dela.

Ora, não se preocupe com estas escaras. Dizia , quando percebia meu esforço, para trocar-lhe a posição na cama - Estas chagas são como rosetas em jardim velho, necessárias pra que se perceba o fim. O que preciso agora menina, é que você caminhe até aquela estante azul e traga um livro de Neruda. Mas vá devagar, em silêncio, com se calçasse somente meias. Abra a jinela, deixe a lua ouvir o poeta.

Sorri pra ela, corpo sumido sob os lençóis. Janela, vó, janela.  Aquela doce criatura de palavras erradas, não sabia ler nem escrever, uma pena - tinha uma alma que transbordava quando ouvia poesia. Especialmente Neruda, a quem considerava - um Deus das coisas bonitas.
Era a primeira vez que eu enfrentava a morte. Decidi que deveria manter a cabeça erguida, com coragem, pois se fugisse, certamente passaria o resto dos dias com medo de tudo. Escolhi a poesia de Neruda para acompanhar meus passos.

Era só o que podia fazer naquele momento, por mim e por ela. Recolher os fios do canto do poeta, erguer uma ponte, deixá-la partir.
Tínhamos um ritual noturno. Sob a meia-luz do abajur, numa atmosfera de rosas e dálias, lia Neruda. Ela fechava os olhos, às vezes repetia as palavras, baixinho, numa oração. Juro tinha momentos que olhava pra minha avó - via suas asas - suaves e densas, movimentando-se sob um som abafado, numa música sem música.  Devia ser por que o sentimento que tinha por ela rodopiava no quarto, tirando o peso da gente. De vez em quando, ela pedia que eu lesse coisas que eu mesma escrevia. Então sorria, minha pequena Neruda, dizia emocionada segurando minhas mãos.   

Sabia que não era verdade, mas mentirinha na boca da vó tinha gosto de algodão-doce.
Uma noite, enquanto eu cochilava na poltrona a seu lado - ela se foi. O quarto mergulhado na luz prateada da lua.
Ajoelhei-me aos pés da cama, rezei baixinho
 Vai em paz minha avó. Deixe que Neruda liberte agora, os “pássaros que dormiam em tua alma”.

domingo, 16 de setembro de 2012

TEXTO DOS ALUNOS - Rui Pizzato


O Orgasmo

Cinquenta e dois anos. Considerava-se bonita, Corpo bem torneado. Seios firmes, resultado de uma cirurgia plástica depois do último parto, cerca de quinze anos atrás. Fazia ginástica por recomendação médica. Não podia engordar. Os níveis de colesterol e triglicerídeos estavam no limite considerado alto. O esforço compensava.  A ginástica que realizava regularmente nos últimos oito ou nove anos, além de moldar seu corpo, lhe deu uma tonicidade muscular de fazer inveja a muitas mulheres com dez anos menos.

Era formada em administração de empresas com especialização em marketing. A empresa, cujo proprietário era um amigo do seu marido, era pequena, e o universo de atuação era restrito à região onde morava. Casou cedo. Na época, morava no interior do estado. Oriunda de família simples, não teve muitos pretendentes e entendeu que o primeiro namorado seria o homem de sua vida. Tinha duas filhas, uma vida confortável, oriunda do resultado da fazenda do seu marido. Teoricamente não tinha do que se queixar.

Era feliz? Perguntava a si mesmo regularmente. O que era felicidade? Como podia ser medida? Não fazia terapia, pois seu marido entendia que não era necessário. “Essa tal de terapia pode virar tua cabeça”, dizia ele com frequência. Para não se incomodar, Regina, deixava assim. Sua vida era por ela considerada morna. Faltava emoção. Seria diminuição de desejos sexuais? Resultado do início do climatério? Muitas perguntas, poucas respostas.

Surgiu na empresa uma chance de atender uma nova empresa, e uma reunião importante foi marcada em São Paulo. Na véspera, o chefe de Regina e dono da empresa teve um problema de saúde e não pode viajar. Ele tentou adiar a reunião, mas duas pessoas viriam dos Estados Unidos especialmente para essa reunião. Regina foi escalada para substituí-lo. Ela estava tecnicamente preparada. Conhecia a empresa e o produto. Sabia o que falar. Sabia como convencer os novos clientes para que a reunião tivesse êxito.
Mal deu tempo para avisar o marido que estava na fazenda, e embarcou no primeiro voo para São Paulo. Na viagem, revisou o programa e chegou a cochilar. Estava excitada com a oportunidade. Por surpresa, não estava nervosa. A viagem transcorreu normal. Chegou a tempo de ir ao hotel, trocar de roupa e chegar no horário marcado para a reunião. Olhou-se no espelho antes de sair. “Estou bonita”, pensou.

Quando adentrou a sala de reuniões, percebeu que havia um número maior de executivos do que ela imaginava. Todos os sete homens ficaram paralisados quando Regina entrou apresentada pela secretária da diretoria. Não só sua beleza chamou atenção, mas principalmente seu porte, sua postura e seu sorriso agradaram a todos. Após os cumprimentos formais, Regina iniciou a apresentação do trabalho em power point bem realizado por sua equipe. À medida que a apresentação era realizada, Regina percebeu que estava no seu dia. Falando em inglês e português, a qualidade da apresentação ia aumentando à medida que os minutos passavam. 

Um dos americanos chamou a atenção de Regina. Ele, além de ouvir e gostar da apresentação, mantinha um olhar diferente dos demais. Aos poucos, Regina percebeu que era um olhar de desejo. Já conhecia aquele tipo de olhar, mas este era especial. Ela percebeu que o americano a estava desnudando com seus olhos azuis. Sentiu um arrepio dentro de si. Ele era elegante e muito charmoso.  Aparentava uns quarenta e oito anos. Seu olhar penetrava cada vez mais fundo no corpo de Regina. Por um instante, ficou perturbada, mas retomou a apresentação. Não podia diminuir a qualidade da apresentação. Desviou o olhar para os demais ao continuar a apresentação. 

Quando cruzava com ele, sentia o mesmo bem estar. A curiosidade feminina havia invadido sua alma. Ninguém a tinha olhado daquela forma. Um olhar de desejo jamais sentido por ela. Ficou envaidecida e surpresa. Aquele fato a deixou excitada. A temperatura do seu corpo aumentou acompanhada pelo batimento cardíaco.
Após alguns minutos, encerrou a apresentação. Foi muito cumprimentada. O aperto de mãos do americano confirmou o que havia sentido. A eletricidade estática transmitida no encontro das mãos comprovou tudo. O beijo no rosto, diferente dos demais, marcou mais fundo. A conta de marketing fora ganha com a apresentação. 

Regina sentou-se, e a conversa sobre o assunto continuou. O americano olhava numa só direção. Regina sentiu-se acariciada por aquele olhar. De repente mãos imaginárias começaram a subir sobre suas pernas. Apesar da saia justa que ela usava, havia espaço suficiente para que duas mãos circulassem livremente sobre suas coxas. Regina imaginou-se sem calcinhas, e as mãos seguiram o caminho natural, uma avenida com mão única até chegar à região pubiana. As mãos, como mágicas, foram rodeando o local principal. Seu clitóris já eriçado aguardava ansiosamente a chegada dos dedos para serem beijados por seus lábios vaginais, já úmidos pelo momento vivido. A penetração calma e firme de um dos dedos foi o clímax da viagem. Apertou ao máximo uma coxa contra a outra e sentiu uma sensação maravilhosa. Teve um orgasmo longo e pleno.
O melhor orgasmo da sua vida.

TEXTO DOS ALUNOS - Fátima Parodia

Meninas delicadas não brigam

 A bola subia, em volteios coloridos, leve - abrindo as asas e esquecendo o chão. A criançada erguia o rosto, pra acompanhar sua rota, o sol tardio queimando a pele.
Eles corriam pelo pátio, estendendo os braços para ampará-la no voo e mais uma vez, faze-la voltear deixando rastros de inocência e cor no infinito branco.

E a Cirlei, a filha da vizinha, ali – sentada no muro, olhar cru - ave de rapina, esperando o momento em que a bola colorida caísse em suas garras.Com um olho Larinha acompanhava a bola, com outro mirava a Cirlei. Estava pronta pra frustrar-lhe os planos. Faze-la engolir a inveja. Menina mimada, marrenta, filha única. Fazia pouco da miséria dos outros. Larinha nem ligava para a própria pobreza, tinha uma coisa muito mais preciosa – seis irmãos pra brincar.Aos nove anos eram inimigas declaradas. Mas não brigavam. Não era coisa de menina. Meninas são delicadas, não brigam, pensava Larinha.

Maldito momento em que a bola, num vacilo inocente e suicida, se jogou nas garras da Cirlei.Não adiantou implorar. Ameaçar. Nem as lágrimas do caçula amansaram o coração da fera. Só receberam de volta um corpo de plástico, flácido, colorido e sem vida. E o olhar de escárnio da Cirlei.

Toma, tua ex-bola. Disse debochadamente jogando o pobre pássaro sobre os pés da inimiga.Larinha não se conteve. Jogou o corpo miúdo sobre as carnes fartas da Cirlei. Com a raiva lhe turvando os olhos, bateu tanto na menina que tiveram que arrancá-la das suas mãos.

Enfim, o acerto de contas.O irmão mais velho pendurou a bola na cumeeira da casa. Um aviso discreto pra Cirlei. Um símbolo de vitória. Pra Larinha – apenas um pássaro torto, pintando de fúria e cor - os céus em dia de vento.